A visão que se tornou visível

Desde o início da Missão Vida, em 1983, eu sonhava com um lugar amplo onde pudéssemos desenvolver atividades ocupacionais, profissionalizantes e cujos resultados pudessem ser absorvidos pelo próprio Centro de Recuperação. Eu sonhava com um lugar para plantar e colher alimentos para as pessoas assistidas pela instituição. Um lugar em que os internos pudessem trabalhar e ver os frutos do seu trabalho. Este era o sonho que, no início do trabalho da Missão Vida, parecia extremamente distante.

Quando decidi construir o primeiro Centro de Recuperação de mendigos do Brasil, o lugar que o Senhor nos deu foi um terreno em um dos bairros mais pobres e violentos de Anápolis. O lugar era conhecido como Coréia, relacionando-o aos conflitos entre a Coréia do Norte e Coréia do Sul. Sair às ruas após as 21 horas era um risco e costumavam dizer que se uma pessoa conseguisse cruzar o bairro à noite sem ser assaltado, receberia um prêmio. A rua onde estava o terreno doado por uma igreja da cidade era, seguramente, a mais pobre da cidade.

A igreja proprietária do lote tentou abrir naquele local uma pequena congregação, mas não conseguiu. Muitas vezes, durante o culto, ela foi apedrejada, invadida, teve os móveis quebrados e as pessoas agredidas. Mas este era o lugar que o Senhor nos dera e ali seria construída a Missão Vida. Não foi um período fácil. Os moradores eram agressivos e hostis. Às vezes, trabalhávamos na construção o dia todo e quando voltávamos no dia seguinte, tudo havia sido derrubado e os materiais roubados. A verdade é que não nos queriam no bairro, mas nós não nos deixamos intimidar e o primeiro núcleo foi construído.

A presença da Missão Vida transformou o bairro. Cinco anos após a nossa chegada à Coréia, as condições de vida no setor melhoraram consideravelmente. Água potável, esgoto e asfalto foram alguns dos benefícios que chegaram como consequências de nosso trabalho junto à Prefeitura Municipal. Com as melhorias implementadas, os casebres de madeira e lona deram lugar às casas de alvenaria. Muitos mendigos e alcoólatras que viviam naquela região participaram do programa de recuperação e tiveram suas vidas transformadas. Aos poucos, a Coréia desapareceu e hoje é apenas uma lembrança dos moradores mais antigos da cidade.

Mesmo com o Centro de Recuperação construído, eu não deixava de sonhar e orar por uma área maior. Cheguei a olhar uma chácara de dois alqueires a 30 quilômetros de Anápolis, acreditando que ali seria um excelente lugar. Entretanto, Deus tinha planos muito maiores para a Missão Vida e Ele nos daria o ideal no momento certo.

Ainda nos primeiros anos da Missão Vida, conheci D. Agnes Chagas, uma mulher norte-americana que havia sido enfermeira da Cruz Vermelha e era viúva do irmão do cientista Carlos Chagas. Ela vivia em uma grande propriedade a 55 quilômetros de Anápolis e dedicava seus dias a ajudar meninas pobres da região, ensinando-as a cozinhar, passar, lavar roupas, noções de etiqueta e, ainda, alfabetizando-as. Mas o grande desejo daquela senhora era doar suas terras para igrejas e organizações evangélicas missionárias e transformar toda a área em um ponto importante para a evangelização no Centro-Oeste. Ela dividiu a propriedade e fez as doações, mas muitas igrejas e instituições nunca usaram a área como desejava sua donatária.

Quando conheci Agnes Chagas e falei sobre o trabalho da Missão Vida, ela já havia realizado todas as doações, apenas a sede da fazenda onde morava e que fora doada para a instalação de uma antena de transmissão de rádio, ainda poderia ter a doação anulada. Ela se prontificou a entrar em contato com eles para tentar desfazer a doação, já que com as transmissões via satélite, a rádio não mais necessitava da área. Entretanto, apesar de ter me acompanhado no primeiro contato com aquela senhora, o pastor da igreja em que tanto eu quanto ela éramos membros, alguns dias depois, voltou sozinho à fazenda e disse a ela para não doar o terreno para a Missão Vida, pois não teríamos condições de melhorar as dependências e nem sequer de mantê-las. Agnes aceitou a sugestão do pastor e comunicou-nos de sua decisão.

Apesar de muito chateado e triste com o que acontecera, minha amizade com ela perdurou até seu falecimento. Eu costumava visitá-la regularmente e passávamos o dia orando e conversando, andávamos pela propriedade e eu ouvia sobre seus sonhos para aquele lugar. Agnes era uma pessoa extremamente objetiva, inteligente e, sobretudo, comprometida com o Reino. Lembro-me de uma cena muito marcante: Ela estava na frente de sua casa, plantando árvores quando um empregado perguntou-lhe por quê, aos 80 anos, ela se preocupava em plantar árvores se provavelmente não as veria crescer. Ela olhou nos olhos daquele homem e disse:

- Você está vendo aquelas árvores carregadas de frutas? É bem provável que a pessoa que as plantou não as tenha visto. Graças a Deus, essa pessoa não pensava como você e, por isso, nós temos a sombra e os frutos dessas árvores.

Dentro daquela propriedade, eu encontrei um lugar muito bonito e tranqüilo, perto da sede da fazenda, e fiz dele o meu local de oração. Sempre que podia, eu me recolhia ali para momentos de conversa íntima com o Senhor. Esse se tornou um hábito e um grande prazer.

Passado algum tempo, convidamos o Pr. Marcelo Gualberto, presidente nacional da Mocidade para Cristo (MPC), para as comemorações de aniversário da Missão Vida. Em seu final de semana em Anápolis, ele me pediu que o levasse a uma área que a MPC havia recebido como doação. Ele não tinha certeza da localização e gostaria de ver se o terreno havia sido invadido. Caso a área não estivesse invadida, a MPC tinha planos de vendê-la.

Nós fomos ao local e qual não foi minha surpresa ao perceber que a propriedade de 33 alqueires havia sido doada por uma norte-americana chamada Agnes Chagas e o local era exatamente onde eu costumava orar. Pr. Marcelo, ao perceber que a área continuava intacta, perguntou-me se eu poderia ajudá-lo a encontrar alguém para comprar a propriedade, porque a MPC não tinha interesse em mantê-la. E, nesse momento, eu falei do interesse da Missão Vida em construir um centro de recuperação no local e que gostaríamos de comprar a propriedade. Sem saber o valor da área, fiz a proposta de pagar mil dólares por alqueire.

Não tinha o dinheiro, mas Deus nos daria estratégias para levantar os recursos. Pr. Marcelo achou o valor muito pequeno diante do tamanho e da localização da propriedade, mas levou nossa proposta à diretoria da MPC. E, neste momento, aconteceu mais um milagre. O conselho da MPC aprovou a venda, permitindo que pagássemos o valor em cinco anos. Nós trabalhamos muito durante esse período para levantar os recursos. Realizamos vários eventos beneficentes em Anápolis, Goiânia, Brasília e Belo Horizonte e, para a Glória de Deus, conseguimos pagar todas as parcelas rigorosamente em dia.

Concluído o pagamento da propriedade, tínhamos um novo desafio: construir o Centro de Recuperação de mendigos. Não tínhamos dinheiro para construir um rancho sequer. Eu sempre visitava o lugar e levava pessoas com possibilidade de nos ajudar para conhecer o terreno e falar sobre o nosso projeto, mas ninguém se dispunha a nos ajudar. Já haviam se passado quase oito anos desde a aquisição e nada fora construído. Isso inquietava meu coração e decidi começar uma campanha de jejum e oração por este projeto. Convidei 16 pessoas para jejuarem e orarem comigo por 40 dias, e assim nós fizemos.

Nesse período, fiz um propósito com Deus de que só voltaria a pensar em construção quando a Missão Vida tivesse R$ 200 mil específicos para as obras. Há algum tempo, nós realizávamos eventos beneficentes e alguns movimentos para levantar dinheiro e, ao final da campanha de oração, perguntei ao diretor executivo quanto dinheiro havia especificamente para a construção e, para minha surpresa, nós tínhamos R$ 217 mil. Então, era chegada à hora de iniciarmos.

Fizemos os projetos e estabelecemos, com a ajuda de um engenheiro e um arquiteto, o melhor lugar dentro dos 33 alqueires para a construção do centro de recuperação. Iniciamos a terraplanagem e verificamos que o local era muito úmido, cheio de pedras e as obras somente poderiam ser realizadas, com qualidade e custo menor, alguns meses depois. Fiquei decepcionado com este imprevisto. Sentei-me à sombra de uma árvore e orei ao Senhor para nos dar uma solução.

Enquanto orava, o mestre-de-obras que fora recuperado pela Missão Vida, aproximou-se de mim e convidou-me para conhecer o ponto mais alto da fazenda. Nós caminhamos cerca de 500 metros de uma subida íngreme e chegamos a um lugar plano, praticamente apenas com vegetação rasteira e com uma vista incrível. O lugar era perfeito e, além disso, não teríamos que gastar com a terraplanagem da área. Mudamos imediatamente o local da construção. Seguramente, a Missão Vida está num dos lugares mais bonitos do Brasil, com uma visão privilegiada de 360º é um lugar maravilhoso onde é possível sentir a presença de Deus.

Iniciamos a construção e uma das decisões que marcou esta fase foi à transferência de todos os internos para a área da construção. Essa é uma característica das construções da Missão Vida: utilizar a mão-de-obra de ex-internos do programa de recuperação e, também, dos internos como parte das terapias ocupacionais. Sempre digo a eles que quando chegaram à Missão Vida, a situação já estava estabilizada e o que estão usando, foi construído por aqueles que passaram por aqui antes e, por isto, todos precisam dar o seu melhor para o que estão por vir.

A princípio, pensamos em fazer o transporte diário dos internos, entretanto além de ser muito dispendioso, ainda havia o risco diário na estrada e a perda de tempo. Precisávamos levar os internos e procuramos os diretores de acampamentos da região para que nos ajudassem cedendo à área por algum tempo. Todas as respostas foram negativas.

Um dia, vi uma construção do outro lado do vale e fui ao local procurar informações. Aquela área era de uma igreja de Brasília onde funcionava o Acampamento Brasiliense da Aliança. O diretor que estava no local, recebeu-me muito gentilmente e ouviu meu pedido sem demonstrar muito interesse. Na verdade, estranho seria se tivesse demonstrado, afinal minha proposta era que ele abrigasse ex-mendigos durante pelo menos seis meses e sem qualquer retorno financeiro. Ao final da conversa, ele me disse para encaminhar um pedido oficial para que fosse analisada pela diretoria. Para minha surpresa e para nossa felicidade, alguns dias depois, a resposta foi positiva.

Nós levamos os internos e os obreiros para o Acampamento Brasiliense da Aliança. Mais de 700 homens trabalharam na construção do centro de recuperação durante os muitos meses de obra. Eu conduzi pessoalmente as atividades e ia ao local diariamente. Logo após a saída dos internos de Anápolis, nós desmanchamos todas as camas e os guarda-roupas de alvenaria do núcleo de Anápolis. Essa decisão foi uma forma de não sucumbirmos à tentação de voltar diante das dificuldades que enfrentaríamos. E, de fato, tivemos dificuldades enormes por desenvolver atividades de um centro de recuperação, com cerca de cem internos, em um local sem a infra-estrutura necessária para tanto. Mas, para a glória de Deus, inauguramos o Centro de Recuperação de Mendigos no prazo de um ano.

Deus, de uma maneira extraordinária, levantou pessoas e recursos para que as coisas que não existiam viessem a existir. A Missão Vida hoje é, sem dúvida, uns dos lugares mais conhecidos da região e uma respeitada instituição em todo o Brasil. Entre todos os trabalhos que foram edificados na propriedade de D. Agnes Chagas, seguramente, a Missão Vida tem uma das melhores instalações e é referência não só no centro-oeste, mas, também, para outras regiões. E um dos motivos para sermos referência é a seriedade com que temos realizado nosso trabalho.

Há um texto que me chama muito a atenção na Palavra de Deus que diz: “Para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:16). A Missão Vida tem sido visitada não apenas por evangélicos, mas também por autoridades, empresários, diplomatas e pessoas não crentes. Todos são impactados com o que vêem, não somente pela estrutura física, mas, principalmente, pelas vidas transformadas.

A que podemos atribuir este crescimento extraordinário? Basicamente a três coisas: obediência à vontade de Deus, transparência e trabalho. A Missão Vida cresce, em primeiro lugar, porque fazemos a vontade de Deus e quando alguém faz isso, as coisas acontecem de uma maneira fantástica. Segundo, porque trabalhamos com transparência e todo dinheiro recebido pela Missão Vida é gasto na Missão Vida. Nenhum centavo é desviado e isto faz toda a diferença. Quero dar às pessoas aquilo que eu gostaria de receber e isto inclui um lugar agradável, bonito e com boa qualidade de vida. E a terceira razão porque Deus tem abençoado tanto este trabalho, é que temos trabalhado arduamente. Eu e a equipe da Missão Vida temos dado nosso melhor. Juntas, estas três coisas têm feito toda a diferença no trabalho da Missão Vida há mais de 27 anos.

 


21 07 2014

Voltar Para Pagina de Artigos

Newsletter

Mídia Social