Chamado aos treze anos

“Grandes realizações são possíveis quando se dá importância aos pequenos começos”
Lao-Tsé, filósofo chinês

Meu segundo emprego foi aos treze anos, em uma firma de torrefação de café. Todas as manhãs, indo para o trabalho, eu passava por um mesmo caminho, onde um grande grupo de pessoas viviam sob as marquises de algumas indústrias. Eram homens, mulheres e crianças que passavam seus dias e noites nas ruas, sobrevivendo das esmolas que recebiam ou de pequenos delitos. A situação daquelas pessoas tocava o meu coração e eu me perguntava por que elas viviam daquela maneira, por que não tinham um lar, por que não eram felizes?

A cena era deprimente: o lugar cheirava mal, as pessoas eram sujas, maltrapilhas e, muitas vezes, estavam completamente bêbadas. No entanto, apesar de não gostar do que via e da existência de outros caminhos, eu sempre passava por ali. Uma certa manhã, resolvi parar e conversar com eles. Nem todos mostravam-se interessados em perder tempo conversando com um garoto. Mas um deles, o Sr. João, dispôs-se a me ouvir e responder às minhas perguntas.

Sr. João nunca me disse seu sobrenome, mas contou-me sua história. Era alcoólatra, por isso abandonara a família e fora viver debaixo daquela marquise, junto com outros na mesma situação. Já haviam se passado vários anos desde que saíra de casa. Sem que imaginássemos, estava surgindo, naquele momento, uma grande amizade. E, a partir daquela conversa, muita coisa iria mudar em minha vida e na de tantas outras pessoas no futuro.

Na manhã seguinte, levei pão e leite para meu novo amigo. E assim o fiz durante vários meses. Além da primeira refeição diária, também o ajudava com alguns remédios, roupas usadas e cobertores. Todos os dias fazia questão de passar alguns minutos conversando com ele, perguntando sobre seu passado, tentando reanimá-lo. Entretanto, minhas palavras não surtiam qualquer efeito, eram frágeis diante de tanto sofrimento. Sr. João parecia não ter forças para mudar aquela situação.

Um dia, depois de quase um ano, cheguei com o café da manhã do meu amigo. Chamei-o e não obtive resposta. Insisti. Toquei em seu corpo e, então, percebi que estava rígido, inerte. Encostei em sua pele e minha suspeita confirmou-se: ele estava morto. Tinha morrido durante a noite, sem que ninguém o socorresse. Eu não sabia o que fazer. Era a primeira vez que me deparava com alguém naquelas condições. E, para aumentar minha tristeza, esse alguém era meu amigo. Fiquei desesperado.

Deixei o Sr. João na calçada e fui para o trabalho, mas não conseguia concentrar-me e mal podia esperar a hora do almoço para saber o que tinha acontecido com o corpo do meu amigo. Quando passei pelo local, uma pequena multidão encontrava-se ali, observando o corpo ser retirado pelo serviço social e por uma funerária.

Nunca consegui descobrir onde ele foi enterrado, nem tampouco quem era sua família. O convívio e a morte do Sr. João fizeram com que a vida daquelas pessoas incomodasse-me de uma maneira ainda mais forte. Era Deus falando ao meu coração a partir daquela experiência.

Rev. Wildo Gomes dos Anjos 


24 03 2016

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